Cap 38 - O PÊNDULO DO BEM E DO MAL.
Um pendulo que ora oscila à direita ora à esquerda...
Nos atenhamos agora à seguinte descrição:
“Era uma maratona por certo, mas a dúvida me percalçava já que sabia haver treinado, mas não tão adequadamente como se demanda uma maratona, havia com isto não uma desconsideração mas sim uma espontaneidade e pouca seriedade em minhas reflexões, logo comecei a correr, ou melhor andar já que ironicamente me encontrava detrás de uma extensa quantidade de caminhantes, após abrir espaço e fazer cortes como quem anda numa densa floresta com uma foice a cortar mato cheguei à parte dos corredores que pareciam de maneira incrível e fastidiosa andar mais lentamente que os próprios caminhantes. Quê engraçada aquela cena, numa corrida onde deveria mensurar minhas capacidades e potenciais físicos saí os três ou quatro primeiros quilômetros tão devagar quanto uma preguiça, mas não me quedei desalentado com isto, estava com aquele espírito de espontaneidade que não vê qualquer coisa que possa se parecer problemas, os fatos são sempre os fatos e tudo depende de como são interpretados, tendo em vista isso diz-se que nada pode ser designado pois tudo é maleável, e somente se torna algo quando submetido ao processo de interpretação... Esta ladainha é de maneira compacta o que se refere à minha interpretação mansa daquele acontecimento tão manso quanto minha interpretação por certo. Após tanta mansidão o ritmo começou a aumentar, não se tornou vertiginoso, talvez na realidade nunca tenha se tornado, sim minha interpretação pode ter me dado a sensação de que sim.Quanto correria? Dez? Quinze? N~`ao tinha naquele momento nenhuma obstinação fervorosa com relação à completar a prova, o desejo era sim participar de maneira proveitosa e agradável, assim, pouco a pouco desenvolvi um ritmo mais acentuado notando que haviam momentos em que meu organismo e minha mente relutavam contra min, proclamavam com veemente persistência que tudo estava errado, que o terrificante sofrimento era sinal de que não me adequava à situação, e de que aquilo era infinito, continuaria numa cadência interminável, eu estava mal e todos estavam bem, este era o pensamento dominante. Entretanto estes eram breves momentos e após algumas centenas de metros se extinguiam de maneira quase que mágica. Como pode isto? Perguntei-me a min mesmo naquele momento, notando que o fato era digno de posteriores comentários. Esta mudança de cadências além de transmudar no âmbito físico se apresentava vigente no campo psicológico e a velocidade de maneira magnífica superava as concepções de expectativas pessoais mais pretensiosas que pudesse eu fazer. Assim pensava estar bem, o que propriamente era verdade, sentindo a leveza e as sutilezas da corrida que percorre o asfalto como uma dança de harmonia incomparável. Não fazia excessivo calor, pode-se dizer que estava frio, e os ventos escaldavam-se por minha face de maneira que dava mais coragem à esta sublime harmonia, mas logo tudo se desmoronava transformando-se numa parca lembrança, pois dominava-me o amargo sofrimento. É este um jogo de constantes mudanças, um pendulo que ora oscila à direita ora à esquerda, ora a exacerbada plenitude, leveza e sutileza, ora o amargor, confusão e tristeza. É possível deixar este pendulo estagnado no centro? Não! Em hipótese alguma, pois o tempo iria parar, o que nos faz viver é o sofrimento, e o sofrimento é a base para que se consolide a transformação, sofrimento incita a mudança que traz o paraíso da sutil harmonia, é ele que traz o movimento, mudança, transformação, e risco, há também medo envolvido com o sofrimento. Pois sofrer é condizente com o justo momento em que estamos abrindo as grades daquela pérfida e maldita prisão, para tentar sair do sofrer, para conhecer o desconhecido, por isto oscilamos entre o bem e o mal durante a corrida.
Corria mediado destas mudanças, meado ainda na despreocupação com qualquer coisa, duma maneira espontânea. Isto me dava forças adicionais já que a obrigatoriedade trás a tristeza e em seguida desilusão, é arriscado querer alguma coisa. Querer completar uma metragem especifica pode ser o motivo da desilusão, mas quando o sujeito nada quer não deve satistação à sua própria consciência, o que é uma divida cruel e pesada ( Diz-se consciência pesada ). Não haviam objetivos determinados, a criatividade é sempre originada da espontaneidade e traz a liberdade( Observação: curiosamente vejo que nossos assuntos se encaixam de maneira graciosa com as divagações sobre chaves forjadas com os materiais mais criativos e lustrosamente espontâneos que possam haver no mundo. ) Sem me debater ou ficar com remorso parei derrepente no quilômetro dezessete, foi o momento em que notei que o auge do desempenho iria se desfalecer, e as dores do pendulo se intensificavam de maneira estrondosa. Quê acontecia? Possivelmente o pendulo se movia de maneira tão lenta que muito tempo ficava nas dores para depois muito tempo ficar na sutileza e leveza Nas áureas sensações da chegada. Isto não presenciei pois parei!”
3.3.09
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